Diploma de Jornalismo, etimologia e sociedade

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Marcos Palácios*

A suspensão da obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional do Jornalismo coloca o sério risco da apologia ao ´não diploma` e desvalorização da formação universitária de modo geral. O que está em causa, preliminarmente, é a necessidade ou não de uma formação universitária e humanística. Considero tal formação uma condição essencial e basilar para que o jornalista compreenda sua inserção social e seja capaz de posicionar-se como agente competente, ético e proativo na complexa estrutura comunicacional e mediática da contemporaneidade.

Já  tivemos – e ainda temos – exemplos de jornalistas excepcionais e não diplomados. A etimologia é aqui elucidativa: tais personagens são ´excepcionais` justamente por serem atípicos, desvios da regra geral, e portanto constituírem ´exceções` (do latim exceptio).

O ministro Gilmar Mendes tornou-se objeto de chacota por seu infeliz e absurdo paralelo entre jornalistas e chefes de cozinha, mas tampouco acredito que proceda a comparação, aparentemente mais adequada, entre o Jornalismo e algumas atividades diretamente ligadas à criação artística e comunicação, como roteirização, produção, design, cenografia, criação multimídia, redação publicitária. Pode haver coincidências e sobreposições, mas considero tais paralelismos tão forçados e limitados quanto a equiparação de jornalistas a “escritores” e a patética alegação de que, da mesma forma que romancistas e poetas não necessitam de diplomas de Letras, os jornalistas podem ser dispensados de diplomas de cursos superiores. Conquanto, evidentemente, haja proximidades intelectuais e cognitivas entre a produção jornalística, as Letras e outras atividades artísticas, trata-se de funções sociais de índole e caráter totalmente diferentes, seja pela somatória das habilidades requeridas e mobilizadas para sua consecução, seja pela própria inserção dessas atividades no tecido social, seus efeitos, responsabilidades envolvidas, alcance, lugar nos processos de construção da sociabilidade contemporânea.

Não podemos perder de vista o que significa e deve significar a formação universitária. Sempre mantive uma posição mais flexível do que a da maioria de colegas que defendiam e defendem a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do Jornalismo e tenho me expressado abertamente nesse sentido nos fóruns públicos da área de Comunicação Social. Sempre fui e continuo sendo favorável à obrigatoriedade de diploma de curso superior para o exercício da profissão de jornalista, ainda que argumentando, paralelamente, que reduzir a exigência a um diploma específico (Bacharel em Comunicação com Habilitação em Jornalismo) representava um estreitamento excessivo da porta de entrada a esse campo de atuação profissional. Assim, sempre fui favorável à admissão de graduados de outras áreas ao exercício profissional jornalístico, via cursos de pós-graduação (especializações e/ou mestrados profissionalizantes). Ou seja, posicionei-me sempre pela necessidade de uma entrada qualificada ao campo do Jornalismo, ao mesmo tempo em que questionava o Habitus então vigente.

Saúdo com entusiasmo a ´liberação do pólo de emissão` e todas as formas de produção e livre circulação de conteúdos, altamente potencializadas e democratizadas pela Internet e tecnologias digitais de maneira geral. Ninguém necessita de diploma para expressar suas opiniões, é óbvio. Mas não estou – em absoluto – convencido de que aquilo que denominamos Jornalismo, a partir da Modernidade Ocidental, possa ser substituído pela somatória dessas livres expressões, na Web ou qualquer outro suporte. A evidência, que não requer sequer consulta às pesquisas acadêmicas existentes, é de que a vasta maioria da população, especialmente em nosso país, alimenta-se de informação através dos meios massivos. Continuo convencido que esses meios co-existirão – pelo futuro que posso conceber – com as formas não-massivas. Continuo convencido que, enquanto pesquisadores e profissionais da área de Comunicação Social, cabe-nos e vai continuar cabendo-nos um importante papel na formação (intelectual, técnica, ética) daqueles que produzem a informação mediática, massiva e pós-massiva.

Formação universitária – graduada e pós-graduada – significa formação humanística, técnica, ética e alargamento de horizontes intelectuais. Parece-me claro que a atuação profissional de um jornalista requer todos esses elementos, que somente ´excepcionalmente`, nos dias que correm, são produto de uma ´formação de vida`, que passe ao largo dos ambientes universitários.

E não se pode, tampouco, utilizar o perigoso argumento da proliferação de fábricas de diplomas no Brasil, como forma de desqualificar a formação superior universitária. Se as Uni-esquinas deste país são apenas fábricas de diplomas e não cursos de formação universitária, tal fato não pode fazer-nos perder de vista o papel e o lugar da Universidade na vida dos indivíduos e das nações, nos últimos dez ou doze séculos. O problema a ser resolvido é a existência de cursos superiores medíocres e inadequadamente fiscalizados pelo MEC. Não se vai resolvê-lo pela desqualificação generalizada da formação superior.

*Professor Titular de Jornalismo, FACOM/UFBA


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